segunda-feira, 1 de junho de 2009

Summer night

Acordo sentindo-me desnorteada, molhada, oprimida.

Culpa deste calor que se abate sem perdão até desoras. Porque são, de facto, desoras – o despertador pisca, desnorteado também, perdido do tempo, sinal de que a electricidade deve ter faltado.

Olho para o tecto, invisível na penumbra. O calor impede-me de voltar a adormecer.

Respiro fundo, de forma lenta, calculada. Tentando dominar o inferno – porque não é apenas o calor exterior, da rua, intenso e pesado. É também o de dentro, ardente, quase doloroso.

Sim, doloroso. Porque sinto a tua falta e dói.
Porque te quero a meu lado, partilhando o silêncio e a noite escura, partilhando calor.
A ausência deita-se comigo, prendendo-me nas suas garras e quero ter-te aqui.
Tu, tu és mais do que o teu corpo mas também és o teu corpo. E ao pensar em ti, ao sonhar contigo é esse corpo que o meu corpo deseja.

Sei agora porque acordei – foi porque a dor se tornou forte demais.
Olho para mim mesma, para os contornos difusos do algodão que me cobre.
Os mamilos arrebitados fazem os seios túmidos parecer um par de tendas gémeas sobre um planalto. Um circo obscuro em que só eu sei o que se passa. Lá dentro. Cá dentro.
Só eu sei a fome devoradora que me queima o ventre e me faz sufocar.

Acabo por levantar-me, incapaz de permanecer deitada num leito onde não estás.
A (pouca) roupa cai molemente no chão. Desejaria tê-la tirado para ti.

Ponho a correr a água tépida e entro vagarosamente no cubículo do chuveiro. Deixando que a água corrente leve o suor pegajoso e a mágoa, cerro os olhos e encosto-me à parede.
Descontraída, a mente divaga e acabo por pensar de novo em ti, em quanto gostaria de te ter comigo ali mesmo, o teu corpo contra o meu, tocando, explorando, partilhando.

Quase sem dar por isso, as minhas mãos substituem-se às tuas, dolorosamente ausentes, percorrendo os caminhos que não tive que te ensinar naquela primeira e longínqua noite porque pareceste conhecê-los desde sempre, tal como conhecias todas as sinuosidades da minha alma há tanto tempo.
Navegam na minha pele, os meus dedos, como tu navegaste, sem astrolábio nem bússola, encontrando as rotas rumo ao sul do meu corpo. Ali aportam, mergulham no lago invertido oculto pelo monte - verdadeiro mar interior de fogo – e me arrepiam, me fazem morder as costas da outra mão sufocando um gemido, me tornam ainda mais evidente, mais premente todo o desejo que tenho de ti.

Molhada e insatisfeita envolvo-me no roupão, querendo que fora teu o abraço que o tecido turco me oferece, querendo que fora o teu peito a apoiar-me as costas em vez da fria rigidez da parede.
Já sentada na cama, passo a mão pelos lençóis onde os nossos corpos nunca se encontraram, pelas almofadas que nunca acolheram os nossos suspiros e olho para as paredes que nunca ecoaram os nossos beijos.

Deito o meu corpo, lavado de fresco mas vazio do teu calor, preparada – mas nunca pronta - para mais uma noite que não vai dar-me grande descanso.

Mais uma noite sem ti.

0 comentários: