Levantou-se mais uma vez de madrugada.
Ia fumar para o terraço. Da mesma forma que dormia. Nu.
Nas últimas noites vinha com um sorrisinho e ia directo para a casa de banho. A água corria durante alguns minutos. Deitava-se e adormecia de imediato, pensando que eu estava no meu quinto sono.
Decidi segui-lo.
Os degraus frios fizeram-me arrepiar, erguendo duas saliências sob o leve babydoll.
Saí para o terraço. Lá estava ele, as costas musculadas que eu adorava arranhar e as nádegas firmes onde eu cravava os dedos no momento do êxtase expostas ao luar. Excitou-me vê-lo assim, como uma magnífica estátua grega.
Ouviu os meus passos e virou-se, apagando o cigarro.
- Vens ver o espectáculo?
- Qual espectáculo?
- Ah, é verdade, não sabias ... chega aqui e olha para baixo.
No prédio ao lado havia também um terraço a um nível inferior ao nosso. Era visível apenas aos nossos olhos, não havendo outros edifícios à mesma altura. Costumávamos cumprimentar o casal que morava ali nas longas tardes de churrascadas preguiçosas.
Mas às quatro da manhã não havia churrascada.
Em vez disso vimo-los, sobre uma espreguiçadeira, num bailado horizontal, tango em surdina de corpos nus.
- É isto que tens vindo ver?
- Só por acaso. Nem devem ter percebido que eu estou aqui em cima - disse, sorrindo de forma marota. - E há alturas que chega a um ponto em que não me contenho ...
Estavam explicadas as idas à casa de banho.
- Todas as noites?
- Sempre que não chove.
Parecia hipnotizado, como se não se desse conta da sua masculinidade subitamente erecta. Apercebeu-se de que o mirava e fixou-me, os olhos transformados em fundos poços de desejo.
Num momento o outro casal tinha deixado de existir. Beijou-me, as mãos ansiosas numa fúria lúbrica que já não vivenciava há algum tempo debatendo-se com o delicado tecido da combinação.
- Olha que nos vêem...
- Não há mais ninguém que nos veja aqui. Aqueles dois devem continuar demasiado ocupados para olhar cá para cima.
Calou-se, debruçando-se sobre o meu pescoço como um vampiro. Sem bem saber como, os calções do babydoll tinham já deslizado até ao chão e chutei-os para o lado enquanto os seus dedos se afundavam sob o meu triângulo alagado.
Nunca o seu desejo fora tão sôfrego, a um ponto roçando o brutal. Vi-me inadvertidamente a corresponder àquela intensidade na mesma proporção. Enquanto me penetrava de encontro à parede, mordia-lhe o ombro numa fúria quase canibal. Contive um grito, subitamente ciente da possibilidade de sermos ouvidos.
Empurrando-o, fi-lo cair sobre uma das cadeiras do terraço e desci sobre as suas virilhas ferventes, devorando-o com lábios, língua e dentes e fazendo-o agarrar com força o plástico branco. Uivou.
Obrigou-me a parar e levantou-se, os olhos faiscando. Nunca me parecera tão animalescamente belo, tão excitante. Num só gesto, rasgou-me a combinação e era agora a sua boca que me enlouquecia, sugando, mordendo-me os mamilos que doíam de tão túmidos. Fez-me virar de costas, as mãos afastando-me as nádegas enquanto o torso poderoso me obrigava a debruçar sobre o parapeito.
Em baixo, no outro terraço, tinham-se apercebido de nós e sorriam abertamente, olhando para cima.
Agora que eles sabiam não me contive. Quando o senti penetrar-me naquela posição soltei um grito sufocado, cerrando os olhos, as mãos cravadas no parapeito. Quando os voltei a abrir, ainda sob o ímpeto sincopado que me estremecia por inteiro, tinham mudado de posição, virando a espreguiçadeira de forma a que ambos pudessem assistir enquanto ela o montava, valquíria nua na noite.
Mirávamo-nos mutuamente, uns e outros criando um feedback positivo de excitação ao rubro.
Cheguei ao clímax primeiro, demasiado fora de controlo para conseguir contê-lo. Ouvi-o logo a seguir nas minhas costas e senti o fluxo quente nas entranhas.
Segundos depois - tanto poderiam ser dez como oitocentos - ouvimo-los atingindo também o cume do prazer, finalmente libertos do silêncio.
Deixámo-nos ficar durante alguns minutos assim, olhando uns para os outros com ar entontecido, após partilhar uma experiência extraordinária.
Por fim eles levantaram-se e, acenando, voltaram para dentro. Fizemos o mesmo.
Já de volta ao leito ouvi-o rindo baixinho.
- Queres fazer isto mais vezes?
- Por mim, é já amanhã...
Há muito tempo que não dormia tão bem.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
O jogo
Mais uma noite de calor nos lençóis, voltas sobre o meu corpo, a pele que ferve por dentro e por fora.
Olho o relógio em desespero, são quase duas da manhã e o sono não me habita, é este calor que me transtorna o pensar e me fere a pele em brasa.
Levanto-me, derrotada, na cama fica o registo desta batalha insana contra mim mesma, a roupa em desalinho e o meu corpo vincado do burburinho.
Nua, sabe-me bem o contacto frio do chão nos pés.
Quero ver a noite, sentir a brisa, olhar a Lua, deixar as estrelas banharem-me a pele. Vou à varanda para que o meu corpo respire a noite.
Sinto-me livre e leve, ali, a brisa acariciando-me como se fossem os meus dedos correndo pelos montes e vales de que sou feita.
A breve carícia desperta-me o desejo, o desejo de me dar prazer, e encosto-me à mesa de madeira, abrindo as pernas ao frescor da noite. Correm-me as mãos pelo corpo sedento, descobrem-me os mamilos erectos, imagino a tua boca a mimar-me o peito, assim desperto.
Os meus olhos desviam-se lentamente para a direita, e eis que o descubro, o meu mirone, colado à janela, olhando-me com gula.
Leio-lhe o desejo nas linhas do corpo, na forma como, sem pudor, me devora, me abarca no seu olhar. Estaquei, surpresa, mas os seus lábios formam a palavra "continua", e as suas mãos mostram-me o sexo (ainda dentro de umas calças brancas) erecto e desperto pela minha presença.
Algo na magia da noite me embriaga e resolvo deixar-me ir, guiada pelo seu desejo carente.
O espectáculo agora é para ele, o meu Apolo moreno e musculado que me segue, salivando, os dedos que me correm pelo corpo, desejando que fossem os dele. Por isso, dou o meu melhor.
Estou excitada, sinto-o, e os meus dedos confirmam-no, ao tocar ao de leve no meu sexo, molhado como não podia deixar de ser. Imagino os dedos do estranho brincando com aquele pénis que me quer, imagino-o dentro de mim. Será pecado masturbar-me assim, para gáudio de um estranho, desejando o seu calor nesta minha pele que me queima, a sua boca no meu sexo húmido? O pensamento pecaminoso excita-me ainda mais, apura os meus sentidos.
Não sei, sei que, lentamente, vou brincando comigo mesma, massajo o clitóris com os dedos, em movimentos circulares, devagar e depressa, até quase me vir, parando sempre na altura certa.
Viro-me de frente para ele enquanto mergulho dois dedos fundo dentro de mim, vejo-o colar-se ao vidro e retirar o sexo duro para fora das calças, está possuído, acaricia-se com força, uma mão firmemente apoiada no vidro, como se me quisesse tocar.
Vê-lo assim deixa-me em ponto de rebuçado. A minha mão explora fundo no meu sexo, cada vez mais depressa, enquanto a outra aperta o meu seio. Olho-o fixamente, com desejo. O meu corpo treme, sei que não vou aguentar muito mais esta dança, sei que me pede o orgasmo, a libertação.
Estou quase lá, estou quase... na recta final, retiro os dedos de dentro de mim e obtenho um prazer máximo massajando com força o meu clitóris, o que me faz libertar toda a tensão, em espasmos sucessivos. Não páro ainda, é o gozo total, quase até à dor.
Ele está-se a vir também, comigo. Vejo-o contorcer-se e ejacular contra o vidro, oferecendo-se-me. Ficamos assim, num olhar, numa ligação perdida na noite.
Com um beijo soprado, despedimo-nos, enfim.
(e agora espero que desças as escadas, passes a rua e me venhas tocar à porta, me tomes assim nua nos braços, me cubras de beijos e me possuas no chão da sala, tal é a loucura que nos tomou hoje... não tardarás, é certo... estes nossos jogos estão cada vez mais sedutores, cada vez melhores, e a brincadeira acabou de começar, por hoje....)
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