quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ao luar

Levantou-se mais uma vez de madrugada.
Ia fumar para o terraço. Da mesma forma que dormia. Nu.
Nas últimas noites vinha com um sorrisinho e ia directo para a casa de banho. A água corria durante alguns minutos. Deitava-se e adormecia de imediato, pensando que eu estava no meu quinto sono.

Decidi segui-lo.
Os degraus frios fizeram-me arrepiar, erguendo duas saliências sob o leve babydoll.
Saí para o terraço. Lá estava ele, as costas musculadas que eu adorava arranhar e as nádegas firmes onde eu cravava os dedos no momento do êxtase expostas ao luar. Excitou-me vê-lo assim, como uma magnífica estátua grega.
Ouviu os meus passos e virou-se, apagando o cigarro.
- Vens ver o espectáculo?
- Qual espectáculo?
- Ah, é verdade, não sabias ... chega aqui e olha para baixo.
No prédio ao lado havia também um terraço a um nível inferior ao nosso. Era visível apenas aos nossos olhos, não havendo outros edifícios à mesma altura. Costumávamos cumprimentar o casal que morava ali nas longas tardes de churrascadas preguiçosas.

Mas às quatro da manhã não havia churrascada.
Em vez disso vimo-los, sobre uma espreguiçadeira, num bailado horizontal, tango em surdina de corpos nus.
- É isto que tens vindo ver?
- Só por acaso. Nem devem ter percebido que eu estou aqui em cima - disse, sorrindo de forma marota. - E há alturas que chega a um ponto em que não me contenho ...
Estavam explicadas as idas à casa de banho.
- Todas as noites?
- Sempre que não chove.
Parecia hipnotizado, como se não se desse conta da sua masculinidade subitamente erecta. Apercebeu-se de que o mirava e fixou-me, os olhos transformados em fundos poços de desejo.
Num momento o outro casal tinha deixado de existir. Beijou-me, as mãos ansiosas numa fúria lúbrica que já não vivenciava há algum tempo debatendo-se com o delicado tecido da combinação.
- Olha que nos vêem...
- Não há mais ninguém que nos veja aqui. Aqueles dois devem continuar demasiado ocupados para olhar cá para cima.
Calou-se, debruçando-se sobre o meu pescoço como um vampiro. Sem bem saber como, os calções do babydoll tinham já deslizado até ao chão e chutei-os para o lado enquanto os seus dedos se afundavam sob o meu triângulo alagado.

Nunca o seu desejo fora tão sôfrego, a um ponto roçando o brutal. Vi-me inadvertidamente a corresponder àquela intensidade na mesma proporção. Enquanto me penetrava de encontro à parede, mordia-lhe o ombro numa fúria quase canibal. Contive um grito, subitamente ciente da possibilidade de sermos ouvidos.
Empurrando-o, fi-lo cair sobre uma das cadeiras do terraço e desci sobre as suas virilhas ferventes, devorando-o com lábios, língua e dentes e fazendo-o agarrar com força o plástico branco. Uivou.
Obrigou-me a parar e levantou-se, os olhos faiscando. Nunca me parecera tão animalescamente belo, tão excitante. Num só gesto, rasgou-me a combinação e era agora a sua boca que me enlouquecia, sugando, mordendo-me os mamilos que doíam de tão túmidos. Fez-me virar de costas, as mãos afastando-me as nádegas enquanto o torso poderoso me obrigava a debruçar sobre o parapeito.

Em baixo, no outro terraço, tinham-se apercebido de nós e sorriam abertamente, olhando para cima.
Agora que eles sabiam não me contive. Quando o senti penetrar-me naquela posição soltei um grito sufocado, cerrando os olhos, as mãos cravadas no parapeito. Quando os voltei a abrir, ainda sob o ímpeto sincopado que me estremecia por inteiro, tinham mudado de posição, virando a espreguiçadeira de forma a que ambos pudessem assistir enquanto ela o montava, valquíria nua na noite.
Mirávamo-nos mutuamente, uns e outros criando um feedback positivo de excitação ao rubro.
Cheguei ao clímax primeiro, demasiado fora de controlo para conseguir contê-lo. Ouvi-o logo a seguir nas minhas costas e senti o fluxo quente nas entranhas.
Segundos depois - tanto poderiam ser dez como oitocentos - ouvimo-los atingindo também o cume do prazer, finalmente libertos do silêncio.
Deixámo-nos ficar durante alguns minutos assim, olhando uns para os outros com ar entontecido, após partilhar uma experiência extraordinária.
Por fim eles levantaram-se e, acenando, voltaram para dentro. Fizemos o mesmo.

Já de volta ao leito ouvi-o rindo baixinho.
- Queres fazer isto mais vezes?
- Por mim, é já amanhã...
Há muito tempo que não dormia tão bem.

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